Roberto Fendt
Acabaram-se as preocupações?
FMI prevê que as economias emergentes continuarão crescendo a taxas próximas às observadas neste ano
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O mercado financeiro acompanha com enorme interesse, e às vezes ansiedade, qualquer indicação que permita antecipar as decisões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Não é para menos: qualquer erro na antecipação dessas decisões pode custar caro a quem for pego de pé trocado, como costumam dizer.
A ata do Copom é leitura obrigatória para os agentes do mercado. Como também é saber que decisões tomou o FOMC, o Copom dos EUA, já que essas decisões podem influenciar as decisões aqui. E acompanhar uma infinidade de estatísticas, como o desemprego e a venda de casas usadas, nos EUA, e outros dados da União Europeia. E por aí vai.
Ao que tudo indica, contudo, boa parte dessa trabalheira poderá ser eliminada. Porque o governo vem antecipando que pretende continuar a baixar os juros para acelerar o crescimento.
Na última sexta-feira, a senhora presidente da República afirmou que o Brasil deve aproveitar a crise financeira internacional para baixar a taxa de juros, já que teríamos entrado em um ciclo de redução da taxa Selic, “cauteloso e responsável”.
A razão para isso é o “compromisso com a robustez fiscal”. Seria essa pujança das contas públicas que abriria espaço ao Banco Central contrarrestar o que se julga estar por vir, pelo menos na visão do senhor presidente do BC: a recessão e a deflação nos principais países desenvolvidos.
Curioso diagnóstico. Primeiro, porque, as evidências disponíveis contradizem os resultados do compromisso com a robustez fiscal. Segundo, porque não é evidente que o mundo desenvolvido assiste com placidez ao caminhar para a deflação e a recessão.
Na mesma sexta-feira em que se reafirmou o compromisso com a robustez fiscal foi divulgado pelo Tesouro Nacional o valor do superávit primário do mês passado para o governo central (Tesouro, Previdência Social e Banco Central): R$ 2,49 bilhões. O resultado é o pior para o mês de agosto em oito anos, já que em agosto de 2003 o saldo primário foi de R$ 2,48 bilhões. O saldo de agosto foi 12% menor que o do mesmo mês do ano passado.
É claro que olhar apenas para um mês não permite formar um quadro. No acumulado do ano o superávit primário atingiu, até agosto, R$ 69,8 bilhões. Esse valor excede em muito o superávit do mesmo período do ano passado, de R$ 29,7 bilhões, e está próximo ao programado para atingir-se, até dezembro, um saldo primário do governo central de R$ 91 bilhões.
Mas não basta apenas olhar para o passado. É preciso considerar que o resultado do mês pode ser indicativo do que ocorrerá nos meses futuros. E também levar em conta que os resultados do ano espelham, mais que qualquer outro fator, o excepcional crescimento da receita tributária da União, que até agosto aumentou 18,8%. Se a economia desacelerar, como teme o governo, não estará garantido aumento contínuo da receita tributária.
Também não é certo que se está caminhando inexoravelmente para a recessão e a deflação no mundo desenvolvido. O FMI divulgou no último dia 20 o seu relatório do terceiro trimestre sobre a economia mundial. Nele se prevê uma desaceleração do crescimento das economias desenvolvidas, mas se prevê também que as economias emergentes continuarão crescendo a taxas próximas às observadas neste ano.
No frigir dos ovos, para o Fundo a economia mundial deve crescer 4% em 2012, a mesma taxa de crescimento que prevê para 2011. O crescimento das economias avançadas cairia de 3,1% em 2010 para 1,6% em 2011, e subiria para 1,9% em 2012. Os mesmos números para as economias emergentes seriam de 7,3%, 6,4% e 6,1%. E o aumento na inflação europeia questiona a hipótese de deflação na economia mundial.
Com um diagnóstico que conflita com as projeções do último relatório do FMI, o BC iniciou a partir da última reunião do Copom um ciclo de redução da taxa Selic. Se estiver certo o BC quanto à retração da atividade econômica mundial, a mudança de política estará correta, já que um novo choque externo, como o descrito na última ata do Copom, reduzirá a taxa de juros neutra no Brasil.
Se estiver equivocado o BC, correremos o risco de termos nos precipitado ao tomar a medida de reduzir tão acentuadamente a Selic e de, como tudo indica, continuar a reduzi-la nas próximas reuniões do Copom.
O fim das preocupações do mercado com o rumo da taxa de juros dará lugar, caso esteja errado o BC, ao início das preocupações de todos os demais com o retorno da inflação e de seus efeitos, inclusive sobre o crescimento do PIB.