Roberto Fendt
De volta à Idade Média?
Uma maneira de ver as manifestações contra o sistema bancário
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Recebo de um amigo uma foto em que aparece um cartaz manuscrito em que se lê: “1. Pelo fim de dinheiro lastreado em dívidas; 2. Pelo fim do sistema de reservas fracionárias (dos bancos) e das taxas de juros compostas; 3. Pelo fim do Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos.”
O cartaz pode ter sido exibido na manifestação Occupy Wall Street (Ocupar Wall Street) ou em qualquer outra cidade dos EUA. Suas propostas são radicais e espelham bem o que pensa uma parcela da população dos Estados Unidos com relação a seus bancos. Caso as sugestões fossem postas em prática nos Estados Unidos, que tipo de sistema monetário resultaria e quais as suas consequências para a economia do país?
Chamamos de “dinheiro” tudo aquilo que é geralmente aceito como pagamento por bens e serviços que compramos e como quitação de débitos em que incorremos. O papel-moeda que levamos no bolso atende a esse requisito. Os depósitos bancários que movimentamos por cheques (quase sempre) também o atendem.
Há muitas formas de criar-se um depósito bancário. Uma delas consiste em levar-se papel moeda ao banco e transformá-lo em um depósito. Outra consiste na emissão, pelo banco, de um certificado de depósito bancário (CDB). Nessa modalidade, eu empresto ao banco minha poupança e recebo juros (compostos) pela minha aplicação. Mas um depósito também é criado quando o banco desconta uma duplicata de um cliente e deposita o saldo líquido da operação na conta do cliente.
Entendo que é esse último tipo de criação de depósitos que o autor do cartaz combate. Para dar um fim ao “dinheiro lastreado em dívidas” é necessário proibir que os bancos criem depósitos a partir de empréstimos a seus clientes. Esse método de aumentar a quantidade de dinheiro na economia está indissoluvelmente ligado às “reservas fracionárias”.
Pouca gente se dá conta de que os bancos não guardam a totalidade do dinheiro que lá foi depositado, embora o saldo existente, um depósito à vista, como o nome indica, possa ser sacado pelo depositante a qualquer tempo.
De fato, os bancos mantêm como reserva apenas uma fração do total de seus depósitos (daí o sistema de reservas “fracionárias”), emprestando o restante a outros clientes que demandam crédito. E os bancos mantêm apenas essa fração por saberem que os depositantes não retiram imediatamente e pelo total o valor de seus depósitos.
Eliminar o sistema de reservas fracionárias implica em uma redução drástica no valor dos empréstimos que movimentam a produção e o comércio de um país.
Quanto às taxas de juros compostas, muitas pessoas ficam revoltadas com o fato de os bancos ganharem juros sobre juros quando os empréstimos são feitos com taxas de juros compostas. Essas mesmas pessoas talvez não se deem conta de que suas aplicações financeiras são também remuneradas por taxas de juros compostas, já que a reaplicação dos recursos investidos (em uma caderneta de poupança, por exemplo) implica em ganhar juros sobre juros.
A última exigência dos que protestam contra o sistema bancário, o fim do banco central dos EUA, é coerente com as duas primeiras proposições. Se os bancos forem proibidos de criar depósitos em suas operações de crédito, ficariam restritos a emprestar apenas o seu capital e o que captassem das poupanças da população através da colocação de títulos, como os CDBs. Nessa circunstância, não haveria necessidade de bancos centrais com todas as funções que hoje desempenham.
Não haveria problemas sistêmicos como os que hoje nos ameaçam, já que os bancos não estariam criando depósitos, a forma principal do dinheiro que utilizamos. A quebra de um banco seria um fenômeno isolado e não criaria problemas para os demais.
Não sei quem escreveu o cartaz, nem sua corrente ideológica. Imagino que talvez seja alguém de esquerda, protestando em uma das muitas manifestações que estão ocorrendo nos centros financeiros dos EUA.
Mas não deixa de ser curioso, se a pessoa for de fato de esquerda, que as propostas contidas no cartaz foram encampadas por alguns dos mais radicais economistas da chamada “direita”. Um desses, Murray Rothbard, considerava o sistema bancário baseado em reservas fracionárias “uma fraude”, justamente por basear-se em reservas fracionárias.
Quem sabe, talvez esse mesmo conceito seja partilhado por alguns dos protagonistas do Tea Party. De qualquer forma, numa sociedade baseada na divisão do trabalho e em que poupadores e investidores são grupos distintos, ligados somente pelo crédito, as propostas nos levariam de volta à baixa Idade Média.
[Este artigo foi originalmente publicado no "Diário do Comércio", de São Paulo.]