Diário da Rússia

Roberto Fendt

Uma nova estratégia para a África?

Precisamos apoiar nossos exportadores com financiamento, como o fazem os chineses, indianos, europeus e americanos

Precisamos apoiar nossos exportadores com financiamento, como o fazem os chineses, indianos, europeus e americanos Segundo os manuais de finanças públicas, digam o que disserem os governos, as reais prioridades da administração situam-se no orçamento. Primeiro, na sua redação, onde o Executivo e o Legislativo mostram as suas intenções com respeito à capacidade de tributar e de gastar.

Segundo, na execução do orçamento aprovado, quando o Executivo de fato exerce seu poder de determinar quais programas e projetos, dentre os que constam no orçamento, são realmente prioritários e serão levados adiante.

Muitas vezes há um fosso entre a retórica das intenções orçamentárias e a dura realidade dos fatos. Agora mesmo, o Ministério do Planejamento reduziu as verbas do programa Proex-Financiamento, dos US$ 2,8 bilhões aprovados inicialmente para US$ 800 milhões (corte de 71%). E os recursos do Proex-Equalização, de US$ 1,2 bilhão para US$ 400 milhões (corte de 67%). São esses recursos que financiam as exportações brasileiras de produtos manufaturados para os diversos mercados em que atuam nossas empresas exportadoras.

Em meio a essa mudança de prioridades estratégicas para as nossas exportações, anuncia-se agora que a senhora presidente decidiu que as exportações de mercadorias e serviços para a África merecem uma estratégia de apoio especial.

Um “Grupo África” está sendo criado para sugerir medidas para dinamizar as exportações, reunindo representantes de cinco ministérios sob o comando do senhor ministro do Desenvolvimento.

A realidade da competição na África, contudo, requer um apoio creditício que não é compatível com a recente redução dos financiamentos às exportações brasileiras. Dois novos competidores, além dos tradicionais concorrentes sediados nos países desenvolvidos, estão muito ativos na África, e seu principal instrumento de apoio às vendas é uma oferta abundante de crédito.

Nossa corrente de comércio com os países africanos gira hoje em torno de 23 bilhões de dólares, com exportações da ordem de 10 bilhões de dólares e importações de 13 bilhões de dólares. A Índia deve ter até o final do ano uma corrente de comércio da ordem de US$ 50 bilhões. E a corrente de comércio da China deve passar dos US$ 110 bilhões. Na retaguarda desse espantoso volume de comércio está a inesgotável fonte de recursos de que dispõem os chineses com suas reservas internacionais, estimadas em mais de US$ 3,2 trilhões.

No que diz respeito a investimentos, também a China nos deixa muito para trás. O investimento acumulado dos chineses já chegava a US$ 13,5 bilhões no já distante ano de 2007. O nosso, em 2008, mal chegava a US$ 1,2 bilhão. De lá para cá, aumentou a distância entre os dois países.

A Índia não faz por menos. O primeiro-ministro indiano Manmohan Singh, em visita à África em maio ultimo, ofereceu US$ 5 bilhões em empréstimos a taxas de juros favorecidas aos países da região que estiverem interessados em se tornarem seus parceiros comerciais. Além disso, estão oferecendo US$ 1 bilhão para custear projetos nas áreas de ferrovias e manutenção da paz.

O Brasil conta com especial boa vontade de seus parceiros africanos por empregar preponderantemente trabalhadores locais em seus investimentos no continente. O mesmo não pode ser dito com relação aos chineses, que tendem a “importar” seus nacionais e trasladá-los à África. Além disso, ganharam a fama de estarem somente interessados na exploração de recursos naturais para exportá-los para a China.

Se esse argumento era ou não verdadeiro no passado, ele vai ficando para trás. Hoje, os chineses investem pesadamente em projetos que não estão associados às exportações de matérias-primas – estando agora envolvidos na recuperação da infraestrutura, construção de ferrovias e rodovias, barragens e imensos projetos habitacionais para a população de baixa renda.

Temos a oferecer aos parceiros africanos sofisticados serviços de engenharia e alimentos processados. Detemos tecnologia de fronteira no agribusiness em geral e em biocombustíveis, em particular. Nem todos, ou melhor, muito poucos países africanos são exportadores de combustíveis.

Mas para tornar esse potencial em fatos concretos, necessitamos apoiar nossos exportadores com financiamento, como o fazem os concorrentes chineses e indianos, além dos tradicionais europeus e norte-americanos.

Certamente, os cortes dos recursos do Proex no orçamento estão a requerer ajustes para que a nova estratégia africana da senhora presidente passe da retórica à realidade.

[Este artigo foi originalmente publicado no "Diário do Comércio", de São Paulo.]

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