Diário da Rússia

Roberto Fendt

Novela ruim

Talvez tenha chegado a hora de aplicar aos bancos europeus uma legislação antitruste específica

No passado, quando uma novela de televisão se mostrava ruim e sem audiência, muitas vezes a solução era promover uma mortandade de personagens e abreviar o desfecho. O caso exemplar foi de uma novela em que ocorreu um maremoto, matando praticamente todos os personagens e abrindo espaço na programação para a novela seguinte.

Esta semana, a polícia de Nova Iorque pôs fim na cidade a um tipo de novela chata que tinha por título “Ocupar Wall Street”. Havia um clamor popular pelo fim da novela. O enredo era insosso e a audiência, inicialmente grande, foi minguando, à medida que se percebia que o enredo, que se supunha bom, não rendeu o que se esperava.

A novela que não parece ter fim à vista é a da crise europeia. O enredo é complexo, com uma história dentro da outra. E os autores não têm uma ideia clara da trama e são surpreendidos pela sequência dos capítulos, sendo obrigados a improvisar todo o tempo. Para piorar, os atores, descontentes com o texto, improvisam suas falas, dando à trama direção diversa à pretendida pelos autores.

O problema com a novela da crise europeia consiste na impossibilidade de promover-se um maremoto que matasse todos os maus personagens. Se o leitor identificou os bancos com os maus personagens, acertou. Mas terá acertado somente metade da história se não tiver lembrado que os governos são tão maus personagens como os bancos.

De fato, bancos e governos são dois grupos de personagens que representam papéis complementares. Os governos são vilões porque estão superendividados; a vilania dos bancos consiste em servir de intermediários, abrigando em seus ativos títulos dos governos insolventes.

Sem os bancos, os governos de quase todos os países europeus precisariam fazer um ajuste fiscal sem precedentes, desnudando aos eleitores o estado de insolvência de suas contas. Sem os governos, o ajuste recairia sobre os bancos, já que a maioria deles tem em seus ativos uma proporção exageradamente grande de títulos dos governos.

Os bancos europeus não podem quebrar – a solução do maremoto – porque causariam com sua quebra a falência dos governos. De fato, nenhum grande banco pode quebrar, o que torna a solução ainda mais difícil: não somente não pode ocorrer um maremoto, mas mesmo uma marolinha pode causar um grande dano, dada a interdependência de ativos e passivos no sistema bancário.

Um único exemplo é suficiente para dar a dimensão do problema: o total dos ativos dos cinco maiores bancos franceses é equivalente a três vezes o tamanho da economia do país. A quebra de um único desses bancos reduziria a oferta de crédito à França e ao restante da Europa. O maremoto ocorreria, não no sistema bancário, mas na economia real.

Portanto, estamos diante daquela parte do enredo que nos conta que os bancos existentes são grandes demais para quebrar. Os governos também são grandes demais para quebrar, já que os europeus se tornaram viciados no welfare state promovido por seus governos. Trata-se de enredo antigo, mas que sempre reaparece e impede que a trama vá em frente.

Como ir em frente é a grande questão, quem sabe, talvez um conjunto de medidas poderia ser posto em prática para atacar o problema em suas duas frentes, a dos bancos e a dos governos, dando início à solução.

Se os bancos são grandes demais para quebrar, porque quebrariam junto com eles as economias, talvez tenha chegado a hora de aplicar aos bancos europeus uma legislação antitruste específica, partindo os bancos grandes em bancos pequenos o suficiente para que uma eventual quebra não ponha em risco as economias nacionais e da Europa como um todo.

Do lado do governo, chegou a hora de começar-se a desmontar o welfare state, preservando-se apenas a rede de proteção social mínima que caiba nos orçamentos nacionais. As pessoas terão que se convencer que não é mais possível manter-se a ficção de que todos podem viver à custa de todos os demais. As pessoas precisam voltar a trabalhar novamente e produzir, em vez de ficar acampados em Wall Street ou diante da televisão, aposentados precocemente.

Esses seriam os primeiros capítulos de uma novela revolucionária, embora dura de assistir. Com essa guinada no enredo, os personagens começariam a ver luz no fim do túnel, para ficar com a metáfora batida.

Não seria fácil de acompanhar, como os espectadores gregos, portugueses e espanhóis já perceberam. Talvez a novela continue com o ramerrame atual, por muitos capítulos à frente. Quanto mais tempo a novela continuar com o atual enredo, maior o risco de um maremoto no final.

[Este artigo foi originalmente publicado no "Diário do Comércio", de São Paulo.]

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