Roberto Fendt
Tudo nos une, nada nos separa?
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul têm posições comuns mas também mostram divergências
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A Presidente Dilma Rousseff teria declarado em Nova Délhi ao final da reunião dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que pretende levar em sua viagem aos EUA a posição do grupo contrária a imposições de sanções ao Irã. Que cacife têm os BRICS para influenciar o Presidente Barack Obama a esse respeito?
As reuniões de cúpula dos BRICS têm uma história recente. A primeira cimeira ocorreu em 2009 na Rússia e incluiu os primeiros mandatários do Brasil, Rússia, Índia e China. Uma segunda reunião com os líderes dos quatro países teve lugar no Brasil em 2010. Em 2011 o encontro se deu na China, e a África do Sul foi convidada a participar da reunião do grupo pela primeira vez. A reunião da semana passada aconteceu na Índia, com a participação dos primeiros mandatários dos cinco países.
Tem sido propósito dessas reuniões ir além dos temas puramente econômicos. Essa disposição reflete a crescente atenção dada aos BRICS após a crise internacional de 2008. Essa maior atenção, sem dúvida, decorre em grande medida do desempenho econômico do grupo, a contrastar com a persistência de sintomas de crise na zona do euro e com o pífio crescimento desse grupo de países.
Em razão do crescente reconhecimento político dos BRICS, pouco antes do início da reunião de Nova Délhi o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, enfatizou que a agenda da cimeira deveria ir além dos temas de cooperação nas áreas de comércio e tecnologia, para também abordar outros temas. Esses incluiriam o terrorismo internacional, as mudanças climáticas e a segurança alimentar e energética.
Indo além, o primeiro-ministro indiano sublinhou também que os BRICS têm posições comuns com relação à reforma das instituições resultantes do acordo de Bretton Woods, que criaram o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
Teriam também posição comum contra o protecionismo comercial e a necessidade de dar-se nova dinâmica à Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio.
Em outros campos, como as Metas de Desenvolvimento do Milênio e a conformação de uma vaga nova ordem internacional, multipolar, equitativa e democrática, os BRICS teriam também convergência de posição. Permanentes consultas entre os membros do BRICS constituiria passo importante para que se pudesse atingir todos esses objetivos.
Segurança alimentar e energética são temas particularmente caros à Índia. Sua população é a segunda maior do mundo, e o país depende de importações de alimentos e combustíveis para sustentar seu desenvolvimento. Com mais razão, a China, detentora da maior população mundial e carente de todo tipo de matérias-primas, depende da oferta mundial desses produtos.
O mesmo, contudo, não se aplica aos demais membros do BRICS. O Brasil é grande exportador de alimentos e (quase) autossuficiente na produção de petróleo. A Rússia é grande exportador de petróleo e gás. A África do Sul é abundante em recursos naturais.
É verdade que nominalmente os países do BRICS apoiam o sistema multilateral de comércio. Mas não é menos verdade que o Brasil, juntamente com os demais países exportadores de alimentos, teve na Índia e na China seus principais adversários nas negociações da Rodada Doha da OMC sobre a liberalização do comércio de produtos agrícolas.
É mais fácil obter consenso quanto à necessidade de se atingirem as metas de desenvolvimento do milênio ou quanto a constituir-se uma nova ordem internacional, multipolar, equitativa e democrática. Quem poderia ser contra tão nobres objetivos? Quanto a se atingirem os demais, as reuniões de cúpula anteriores deixaram a desejar.
A Senhora Presidente Dilma Rousseff pretende dizer ao Presidente Obama que os BRICS são contrários ao bloqueio econômico ao Irã. Na mesma semana em que ocorreu a reunião dos BRICS, a Secretária de Estado americana Hillary Clinton afirmou que a “janela de oportunidade” para um final satisfatório à crise com o Irã está se fechando. As sanções contra o Irã começam também a produzir efeitos. Os americanos e seus aliados europeus, ainda que quisessem, não mais poderão recuar do aprofundamento de sanções ao país.
O presidente argentino, Roque Sáenz Peña (1910-1914), ao visitar o Brasil em 1910, afirmou que "tudo nos une, nada nos separa". Infelizmente, desde a ascensão dos Kirchner, a frase vem se aplicando cada vez menos em nosso relacionamento bilateral. Para ter atuação eficaz no cenário internacional, os BRICS precisam mostrar que têm interesses comuns e que tudo nos une e nada nos separa. O que pode nos levar a imaginar que essa frase se aplique aos BRICS?