Diário da Rússia

Roberto Fendt

Por quem chorarás, Argentina?

Até onde irá a voracidade por recursos do governo da Presidente Cristina Kirchner?

O fragmento do poema de Eduardo Alves da Costa é conhecido, mas vale recordar para entender o que se passa em nossa vizinha, Argentina. O título do poema é “No Caminho de Maiakovski”.

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”

Tem sido assim na Argentina. Primeiro, o governo assaltou os fundos de pensão; depois, apropriou-se das reservas internacionais do país, mantidas no Banco Central da República Argentina. Agora, expropriou e nacionalizou 51% das ações da empresa espanhola de petróleo Repsol YPF.

Até onde irá a voracidade por recursos do governo da Presidente Cristina Kirchner? Na terça-feira, o vice-ministro da Economia argentino assegurou que “reavaliará” o valor da empresa e que não aceitará a avaliação feita pela Repsol de que suas ações da empresa valem 10,5 bilhões de dólares.

Que razões levaram o governo argentino a gesto tão extremo, só antecipado no continente pela Bolívia – onde a vítima foi a Petrobras e seus acionistas? De acordo com a Presidente Kirchner, a Argentina é o único país das Américas que não controla seus recursos naturais. Se estiver correta a afirmação, o Brasil e todos os demais países latino-americanos deixaram de fazer parte do continente.

O governo argentino argumenta, em sua defesa, que a Argentina, anteriormente exportadora de energia, tornou-se um importador de petróleo e gás. Isso ocorre a despeito das grandes reservas de hidrocarbonetos descobertas no sul do país. Para a Senhora Kirchner, a Repsol não estaria interessada em explorar essas reservas. Com base nesse argumento, seis províncias argentinas confiscaram as concessões da Repsol nos últimos meses.

A companhia argumenta que investiu 11 bilhões de dólares na Argentina nos últimos cinco anos e somente distribuiu 3,5 bilhões de dólares de dividendos. Para a Repsol, a causa do crescente déficit na balança comercial de energia da Argentina é a combinação deletéria de controles de preços da energia com subsídios, que desincentivam o investimento e incentivam o consumo.

Já vimos esse filme aqui mesmo. Em toda a década de 1950 e em parte da década de 1960, convivemos com expropriações de empresas estrangeiras sufocadas por controles de preços. Tarifas e preços fixados pelo governo abaixo dos custos de produção desincentivavam o investimento e deterioravam a qualidade dos produtos e serviços oferecidos. Com o argumento de que as empresas não investiam, o governo as desapropriava. Uma vez nacionalizadas, tornavam-se cabides de empregos e pioravam ainda mais a qualidade dos produtos e serviços.

Aqui, no passado, como agora na Argentina, esse tipo de fanfarrice produz dividendos políticos. Os altos preços do petróleo no mercado internacional permitirão ao governo financiar seu inesgotável apetite por recursos e gastos. Recorde-se que, desde o calote de sua dívida externa, a Argentina tem enfrentado dificuldades de acesso ao financiamento externo.

Além disso, o ufanismo nacionalista da senhora presidente distrai a atenção dos argentinos para os seus problemas internos. A expropriação das ações da Repsol ocorre justamente após o encontro dos chefes de Estado das Américas em Cartagena, Colômbia. Naquele evento a Presidente Kirchner procurou, em vão, o apoio dos presidentes americanos para uma nova tentativa de “desapropriar” as ilhas Falkland. A barretada atual compensa, com lucro, a anterior, fracassada.

Os possíveis ganhos políticos atuais não compensarão as perdas futuras do país. Ninguém, em sã consciência, investirá na Argentina, para a exploração de petróleo ou em qualquer outro ramo de atividade. A estatal YPF foi privatizada e adquirida pela Repsol justamente porque não tinha recursos para investir na exploração de petróleo.

Os ganhos políticos internos devem também ser comparados às perdas políticas externas. O chanceler espanhol, após reunir-se com o embaixador argentino em Madri, afirmou que a Argentina deu um “tiro no pé” com a medida e provocará um corte em relações fraternais entre os dois países. No mesmo sentido, o presidente do governo espanhol afirmou que a medida é um grave precedente para a economia global.

O governo da Presidente Kirchner deu mais um passo em sua marcha para a insensatez. Os eventos passados não autorizam supor que esse seja o último.

[Este artigo foi originalmente publicado no “Diário do Comércio”, de São Paulo.]

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