Diário da Rússia

Roberto Fendt

O dia em que Moçambique derrotou a Argentina

Rico em recursos naturais e pobre em poupança interna, Moçambique acolheu o capital estrangeiro na transformação de reservas em riquezas

Retorno de uma semana na África e não posso deixar de partilhar com o leitor o que percebi nessa viagem: Moçambique definitivamente derrotou a Argentina no campeonato do desenvolvimento.

Explico: o populismo peronista, em sua versão kircheneriana, esmera-se em constranger e expropriar o investimento externo, como se o país pudesse dele prescindir para custear com recursos internos a sua formação de capital. O caso Repsol YPF, objeto de comentários recentes nesse espaço, é emblemático, embora não seja único.

Os governos dos Kirchner esmeraram-se em fustigar o capital, esquecendo-se que não há crescimento econômico sem divisão do trabalho e aumento da produtividade do trabalho – ambos dependentes do aumento do estoque de capital por trabalhador. Tampouco deixou de punir as atividades em que a Argentina tinha e tem notórias vantagens comparativas. Para ficar com um só exemplo, o duelo entre a senhora presidente argentina e o setor rural do país deixou às claras essa política e seus efeitos deletérios sobre o crescimento do país. Moçambique tomou a direção oposta. Preferiu acolher o capital estrangeiro para suprir a falta de poupança interna necessária para acelerar o desenvolvimento e tirar a população da pobreza.

Em Moçambique, como na Argentina, há enormes reservas de recursos naturais. Ocorre que recursos naturais enterrados no solo não são riqueza; tornam-se riqueza à medida que são extraídos, empregos são gerados na sua extração, salários e rendimentos são pagos, impostos são recolhidos.

A Argentina foi no passado um grande produtor e exportador de petróleo e gás. Mas os demagógicos controles de preços e a interferência estatal na exploração dos recursos desincentivaram os investimentos e em última instância prejudicaram os consumidores. Porque não há produto mais caro do que aquele que não está disponível.

Hoje, a Argentina depende da importação de gás da Bolívia e não mais atende o vizinho Chile com as exportações que realizava no passado. Da mesma forma, por repetir os mesmos erros do peronismo, não há recursos para a exploração das grandes reservas de petróleo do sul do país.

Moçambique fez diferente. Rica em recursos naturais e pobre em poupança interna, acolheu o capital estrangeiro na transformação de reservas em riquezas. O país é rico em energéticos, como petróleo e gás.

No caso da exploração de petróleo, estão em vigor 12 contratos de concessão, e sete companhias operam em duas das seis bacias sedimentares de Moçambique. Lá estão DNO ASA e Norsk Hydro (Noruega), ENI (Itália), Petronas (Malásia), Artumas (Canadá), Andarko Petroleum Corporation (EUA) e Sasol/Petro SA (África do Sul).

Quanto ao gás, a Empresa Nacional de Hidrocarbonos (ENH), em parceria com a petrolífera Sasol, explora os campos de Pande e Temane. A parceria construiu um gasoduto de 865 quilômetros de extensão, ligando a área de produção em Moçambique ao complexo petroquímico de Sasolburg, na África do Sul. Diversas empresas estrangeiras realizam pesquisas sísmicas, entre elas a British American National Gas, a ENI, a DNO ASA e a Anadarko.

Além do petróleo e do gás, há três megaprojetos de investimentos na exploração das reservas de carvão moçambicano. A brasileira Vale do Rio Doce já investiu dois bilhões de dólares em Moatize e deverá investir outro tanto para completar o projeto. Ali, emprega oito mil trabalhadores; quando o projeto estiver completo, empregará 15 mil. Trata-se da segunda maior mina de carvão a céu aberto do mundo. A inglesa Beacon Hill está presente na província de Tete e a australiana Riversdale projeta produzir dois milhões de toneladas de carvão para exportação na província de Benga.

A produção de carvão em Moçambique já ultrapassa três milhões de toneladas, e projeta-se que atingirá 20 milhões dentro de quatro anos, quando estiverem completos os investimentos em curso. Espera-se um crescimento de 17% na produção este ano.

Exploram-se também tantalita, material utilizado na indústria aeroespacial, ilmenita, zircão e rutilo. Todos esses investimentos, com capital estrangeiro, estão impulsionando a economia moçambicana e gerando empregos e renda.

Leitor, a África moderna mantém distância, em seu relacionamento com o capital estrangeiro, dos modelos retrógrados da Bolívia, do Equador ou da Argentina. No campeonato do crescimento, Moçambique está ganhando desses três países.

Um exemplo importante para nós, onde, de quando em quando, as vozes reacionárias da xenofobia e do atraso insistem em querer reviver entre nós os dogmas econômicos fracassados da década de 1950 do século passado.

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